Um dos papéis fundamentais da Psicologia
foi esse: estabelecer o que seria o normal e o patológico, separar o joio do
trigo, para, num segundo momento, oferecer terapêuticas para tentar normalizar
aquele que foge à regra.
Mais do que qualquer outra fase do desenvolvimento
humano, a infância foi aquela em que pode se traçar as linhas de uma faixa de
normalidade: com que idade se aprende a falar, a andar, a ter operações
abstratas... Enfim, à criança, os adultos já tem o que esperar. Vemos, nas
vinhetas clínicas do laboratório A
criança entre a mulher e a mãe (CIEN-Rio), inúmeros exemplos de como isso
tudo opera, e nós, participantes questionadores e interventores desse
funcionamento, no campo interdisciplinar.
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'O Menino que Teve um Sonho' no Teatro de Arena |
Com isso, o que se poderia perceber
como surgido de novo, de invenção por parte da criança? Em um dos Encontros dos
Laboratórios do CIEN-Rio (setembro/2012), estiveram presentes diretor e atores
de uma peça de teatro, intitulada “O menino que teve um sonho”, cujo roteiro é sobre
um menino que sonha com uma princesa em perigo e que só ele poderia salvá-la.
Como se isso não bastasse, teria de ser já, posto que se ele acordasse, não se
lembraria do sonho e a princesa continuaria em apuros. E na própria epopeia, o
jovem menino tem de enfrentar inúmeros obstáculos e o maior de todos: o saber
dos adultos. Mas o menino, muito iluminado por sua “ética de criança”, ouviu o
seu saber e fê-lo falar aos adultos, que em contrapartida, puderam o acolher e
respeitar.
Mas o que isso nos ilumina? Em “A
Criança e o Saber”[1], Miller
fala de modo enfático que é preciso se “restituir o lugar do saber da criança,
o que as crianças sabem” (p.8 ), já que o que presenciamos é a criança como um
objeto em que o saber do adulto opera. Assim, a criança passaria de assujeitado
ao lugar agente, de sujeito. Digo isso, pois, como Miller nos relembra, e não
podemos deixar de esquecer: “a criança é o sujeito a educar, o que quer dizer,
o sujeito a conduzir, a levar [...]. A criança é por excelência o sujeito
entregue ao discurso do mestre pelo viés do saber” (p. 6), saber este que se
trata a título de semblante. Existe então, como aponta Miller, a necessidade de
se conduzir uma criança, de educar, mas respeitando o seu saber.
A atenção que quero chamar aqui é para
dois polos que pude presenciar na clínica e na vida cotidiana: há uma linha
tênue nessa função de educar. Essa linha tênue, difícil, implica uma posição
ética que muitas vezes é completamente apagada, o que torna acentuados os dois polos.
De um lado, a criança é tida como uma “tabula rasa” precisando que um adulto
escreva nesta folha em branco todas as impressões de seu querer, ignorando
completamente o que há de inerente “à folha”. Tapa-se a boca da criança com silver tape. O outro lado - que é novo e
ainda tenho apenas um grande incômodo e coloco nesta nota apenas como
suscitador de questão – é aquele em que a criança tem todo o saber sobre si, é
responsável por seus atos e posta a tomar decisões, sendo que, conforme é
sabido, como criança, ela ainda não tem recursos subjetivos para tal tarefa.
Pergunto, então: seria essa a fonte de
tanta agitação de crianças que são chamadas a responder por aquilo que ainda
não podem e, por isso, “debatem-se” para achar uma resposta que ainda não está
ali? Presencio uma geração de pipas sem linha, vagando a esmo pelo céu das
escolhas, perdidas, pois lhe falta o que Miller coloca como sendo inerente à
condição de criança, aquela que ainda precisa ser guiada, balizada do seu saber.
“É a criança, na psicanálise, quem é suposto saber e é mais ao Outro que se
trata de educar; é o Outro que convém aprender a se conter. Quando este Outro é
incoerente e cruel; quando ele deixa, assim, o sujeito sem bússola e sem
identificação, trata-se de elucubrar com a criança um saber ao alcance dela, à
medida dela, que lhe possa servir” (p. 9). Neste sentido, talvez devêssemos nos
ater mais aos adultos a educar do que às crianças!
[1] MILLER, J.A. “A criança e
o saber”. CIEN Digital nº 11. Janeiro de 2012.

