quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

POEMA À BOCA FECHADA


Não direi: 
Que o silêncio me sufoca e amordaça. 
Calado estou, calado ficarei, 
Pois que a língua que falo é de outra raça. 

Palavras consumidas se acumulam, 
Se represam, cisterna de águas mortas, 
Ácidas mágoas em limos transformadas, 
Vaza de fundo em que há raízes tortas. 

Não direi: 
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem, 
Palavras que não digam quanto sei 
Neste retiro em que me não conhecem. 

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas, 
Nem só animais bóiam, mortos, medos, 
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam 
No negro poço de onde sobem dedos. 

Só direi, 
Crispadamente recolhido e mudo, 
Que quem se cala quando me calei 
Não poderá morrer sem dizer tudo.

José Saramago

domingo, 8 de janeiro de 2012

Furei

Furei a pílula,
Furei a postagem,
Furei o Puran,
Furei o Cálcio.

Mas fico tranquila,
Pois o furo nos concerne.
Não seria eu,
Se não tivesse furado...

Também não será eu
Se não compensar...

Lá se vão...
Três postagens:
6,7 e8
Ops!
Uma já foi...
7!
e
8!
...

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Puf!

Ia falar alguma coisa importante... Ideia brilhante!
Esqueci! Se foi!
Sumiu, se embolou no meio de um emaranhado de pensamentos simultâneos...
Tantos estímulos...
A barriga que dói,
O barulho que invade o ouvido;
O vento que perturba...
Será que volta?
Foi pro ralo...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Pequena reflexão sobre o ser e o vazio


Gostaria de dizer umas coisas, nas quais, simplesmente, só posso estabelecer entre elas uma relação de crença.
Acredito que somos vazios. Vazios repletos de história. O vazio. Ele comporta o tudo e o nada.
Nisso, o inesperado é sempre algo que pode advir do e no vazio.
Isso também, me diz de algo que não existe uma essência, um SER. O ser é algo no tempo. Ele está unicamente em relação de existência com o tempo.
Não um tempo linear, mas um tempo de banda de moebius.
Desculpe se isso não é objetivo, tão pouco faça sentido. Para mim, isso é igualmente novo.
Mas a cada encontro que um ser tem com outros seres, é algo único, singular e não há repetição. Ritornello, talvez...

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Não há nada que se tenha sentido que um poeta já não o tenha dito...


Eis que reproduzo um dom, um presente que recebi de uma amiga muito especial: Thatiane Peclat Goulart.




Barrow-on-Furness

Sou vil, sou reles, como toda a gente
Não tenho ideais, mas não os tem ninguém.
Quem diz que os tem é como eu, mas mente.
Quem diz que busca é porque não os tem.
É com a imaginação que eu amo o bem.
Meu baixo ser porém não mo consente.
Passo, fantasma do meu ser presente,
Ébrio, por intervalos, de um Além.

Como todos não creio no que creio.
Talvez possa morrer por esse ideal.
Mas, enquanto não morro, falo como leio.

Justificar-me? Sou quem todos são...
Modificar-me? Para meu igual?...
— Acaba lá com isso, ó coração!

Álvaro de Campos



Fonte da Imagem: Álbum Público "..." Thatiane Peclat Goulart

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

L'Horloge

Uma homenagem...



L'Horloge
Horloge! dieu sinistre, effrayant, impassible,
Dont le doigt nous menace et nous dit: «Souviens-toi!
Les vibrantes Douleurs dans ton coeur plein d'effroi
Se planteront bientôt comme dans une cible;

Le Plaisir vaporeux fuira vers l'horizon
Ainsi qu'une sylphide au fond de la coulisse;
Chaque instant te dévore un morceau du délice
À chaque homme accordé pour toute sa saison.

Trois mille six cents fois par heure, la Seconde
Chuchote: Souviens-toi! — Rapide, avec sa voix
D'insecte, Maintenant dit: Je suis Autrefois,
Et j'ai pompé ta vie avec ma trompe immonde!

Remember! Souviens-toi! prodigue! Esto memor!
(Mon gosier de métal parle toutes les langues.)
Les minutes, mortel folâtre, sont des gangues
Qu'il ne faut pas lâcher sans en extraire l'or!

Souviens-toi que le Temps est un joueur avide
Qui gagne sans tricher, à tout coup! c'est la loi.
Le jour décroît; la nuit augmente; Souviens-toi!
Le gouffre a toujours soif; la clepsydre se vide.

Tantôt sonnera l'heure où le divin Hasard,
Où l'auguste Vertu, ton épouse encor vierge,
Où le Repentir même (oh! la dernière auberge!),
Où tout te dira Meurs, vieux lâche! il est trop tard!»

Charles Baudelaire - Fleurs du Mal


domingo, 1 de janeiro de 2012

Recebi em resposta. Era tudo que eu queria ouvir e tudo que eu precisava dizer:

"Desejar feliz Ano Novo é algo vazio se não tivermos feito nada para que o futuro seja melhor. A melhor forma de desejar um feliz Ano Novo é fazer algo no presente para que isto se concretize no futuro".

Final de ano. No meio das festas de Natal e Ano Novo surge a expectativa do recomeço e da mudança. Cartomantes, astrólogos, entre outros, são consultados pelos meios de comunicação e pela população para saber como será o ano que está chegando. As pessoas desejam feliz Ano Novo umas para as outras. Todo final de ano é marcado por essa expectativa de que o ano que se iniciará será melhor. Mas de onde vem essa expectativa e essas previsões? Qual é a base real dessa expectativa? O que significa a passagem de um ano para outro? Tais questões são raramente colocadas, pois as pessoas dificilmente questionam o ar que respiram, e isto vale para o “ar cultural”, isto é, o mundo das tradições e concepções que permeiam a vida cotidiana.

As expectativas são produto do desejo de uma vida melhor, de um futuro mais feliz. A origem dessas expectativas está em dois elementos: descontentamento e desejo. O descontentamento com a vida atual (em sua totalidade ou em vários de seus aspectos, que, caso da sociedade moderna, remetem à vida profissional, afetiva, financeira, política) traz o desejo da mudança, a esperança de que dias melhores chegarão, sonhos serão realizados.

O descontentamento e o desejo criam a expectativa e a crença na mudança, bem como uma pseudestesia (falsa sensação) coletiva de renovação. As previsões das pessoas não possuem, na maioria dos casos, uma base concreta. Isso faz das previsões místicas um forte atrativo, pois reforçam a esperança e crença na mudança.

A maioria percebe esse processo como sendo individual: descontentamento, objeto do desejo, expectativa, crença em mudanças para o indivíduo. Embora possam ocorrer mudanças individuais, elas são limitadas caso não ocorram mudanças sociais. Daí o eterno descontentamento e desejo de mudança, pois, mesmo aqueles que sobem um degrau na ascensão social, enriquecem e realizam desejos que, no fundo, não significam realização pessoal, já que eles continuam presos em uma sociedade mercantil, burocrática e competitiva, continuam sentindo o descontentamento e a necessidade de nova mudança. A mudança no sentido coletivo era mais comum em sociedades “primitivas”, não marcadas pelo individualismo e pela competição, embora não tenha sido abolida, mas apenas marginalizada, na sociedade moderna.

Porém, a passagem para o Ano Novo não significa nenhuma mudança em si. O ano é um período de tempo construído por meio de um processo classificatório, utilizando como critério o tempo que o planeta Terra gasta para dar a volta em torno do Sol. No mundo contemporâneo, é o que se chama “ano solar”, cuja origem é egípcia. O que ocorre é um movimento físico de um planeta em torno de uma estrela, marcando determinado período de tempo. Esse período de tempo também expressa mudanças biológicas nos seres vivos, entre outros, mas não apresentando nenhum salto ou mudança radical.

A expectativa de mudança que ocorre neste período do ano é direcionada para a esfera das relações sociais, que não sofrem nenhuma grande influência deste movimento físico que serve de critério classificatório para a duração do ano. Além disso, a demarcação de quando é o fim do ano e início do seguinte é arbitrária, um produto social. Poderia ser, ao invés do dia 1º de janeiro, em agosto, desde que o calendário tivesse sido produzido sob outra forma, com outra marcação das datas. E era assim, por exemplo, no antigo Egito, onde o ano iniciava em 19 de julho. Em outros casos, o início do ano ocorre em outras datas, tal como março, setembro, dezembro. Isto sem falar dos calendários nos quais o ano tem mais de 12 meses. 

Algumas mudanças superficiais reforçam essa pseudestesia coletiva de renovação. Como várias relações sociais se organizam a partir da demarcação temporal do calendário anual, isto reforça a percepção de uma mudança. O calendário escolar, por exemplo, se organiza principalmente de forma anual, o que significa que o indivíduo fica na expectativa de encontrar novas pessoas, viver novas relações. Mesmo sendo um calendário semestral, a sensação de renovação ocorre, reforçada pelo clima geral anunciado pelo Ano Novo e bastante amplificada pelos meios de comunicação, pelo misticismo e pelas religiões. No Ano Novo também há o recomeço do campeonato de futebol e outras competições esportivas, as promessas de novos programas na TV e mais algumas mudanças que, no fundo, nada mudam ou mudam superficialmente, ou localizadamente, atingindo apenas alguns indivíduos ou grupos sociais, o que é pouco mais do que a mudança individual acima aludida. Porquanto, não há mudança na totalidade das relações sociais. Em alguns casos individuais, as mudanças são um pouco mais profundas, tal como para quem passou no vestibular ou acertou um novo contrato de trabalho. 

No que se refere às relações sociais, as mudanças não caem do céu, nem ocorre nenhum acontecimento mágico no 1º de janeiro que provoque qualquer alteração que não seja um processo de continuidade em relação ao(s) ano(s) anterior(es). A Segunda Guerra Mundial, deflagrada em 1939, não nasceu neste ano, pois foi produto de um longo processo histórico que gerou sua razão de ser e existência. Assim, se alguém quer acontecimentos novos no ano seguinte, tem que perceber que existe um processo que traz um conjunto de tendências e que a pura vontade, a fé ou o misticismo nada poderão fazer nesse sentido, já que são as ações anteriores que irão promover as possíveis mudanças. Embora a vontade e a fé sejam elementos que podem influenciar os acontecimentos, a preparação e a ação presente são mais importantes para se alterar o futuro. Isto nada tem a ver com a passagem para o Ano Novo. Um dia mágico no qual as coisas mudam sem nenhuma ação nesse sentido é impossível. A ruptura entre o presente e o futuro não ocorre, pois o futuro é construído no presente — carregando as influências do passado —, inclusive a ruptura. Nada acontecerá no ano que vem que já não esteja preparado, ou em forma embrionária, neste ano e nos anos anteriores. Por conseguinte, desejar feliz Ano Novo é algo vazio se não tivermos feito nada para que o futuro seja melhor. A melhor forma de desejar um feliz Ano Novo é fazer algo no presente para que isto se concretize no futuro.

NILDO VIANA é escritor e sociólogo.
Enviado para mim por Josemar Santos da Fonseca.