terça-feira, 20 de novembro de 2012

O saber e a criança: nem Silver Tape, nem Pipa sem linha.





Um dos papéis fundamentais da Psicologia foi esse: estabelecer o que seria o normal e o patológico, separar o joio do trigo, para, num segundo momento, oferecer terapêuticas para tentar normalizar aquele que foge à regra.
                Mais do que qualquer outra fase do desenvolvimento humano, a infância foi aquela em que pode se traçar as linhas de uma faixa de normalidade: com que idade se aprende a falar, a andar, a ter operações abstratas... Enfim, à criança, os adultos já tem o que esperar. Vemos, nas vinhetas clínicas do laboratório A criança entre a mulher e a mãe (CIEN-Rio), inúmeros exemplos de como isso tudo opera, e nós, participantes questionadores e interventores desse funcionamento, no campo interdisciplinar.

'O Menino que Teve um Sonho' no Teatro de Arena

Com isso, o que se poderia perceber como surgido de novo, de invenção por parte da criança? Em um dos Encontros dos Laboratórios do CIEN-Rio (setembro/2012), estiveram presentes diretor e atores de uma peça de teatro, intitulada “O menino que teve um sonho”, cujo roteiro é sobre um menino que sonha com uma princesa em perigo e que só ele poderia salvá-la. Como se isso não bastasse, teria de ser já, posto que se ele acordasse, não se lembraria do sonho e a princesa continuaria em apuros. E na própria epopeia, o jovem menino tem de enfrentar inúmeros obstáculos e o maior de todos: o saber dos adultos. Mas o menino, muito iluminado por sua “ética de criança”, ouviu o seu saber e fê-lo falar aos adultos, que em contrapartida, puderam o acolher e respeitar.
Mas o que isso nos ilumina? Em “A Criança e o Saber”[1], Miller fala de modo enfático que é preciso se “restituir o lugar do saber da criança, o que as crianças sabem” (p.8 ), já que o que presenciamos é a criança como um objeto em que o saber do adulto opera. Assim, a criança passaria de assujeitado ao lugar agente, de sujeito. Digo isso, pois, como Miller nos relembra, e não podemos deixar de esquecer: “a criança é o sujeito a educar, o que quer dizer, o sujeito a conduzir, a levar [...]. A criança é por excelência o sujeito entregue ao discurso do mestre pelo viés do saber” (p. 6), saber este que se trata a título de semblante. Existe então, como aponta Miller, a necessidade de se conduzir uma criança, de educar, mas respeitando o seu saber.
A atenção que quero chamar aqui é para dois polos que pude presenciar na clínica e na vida cotidiana: há uma linha tênue nessa função de educar. Essa linha tênue, difícil, implica uma posição ética que muitas vezes é completamente apagada, o que torna acentuados os dois polos. De um lado, a criança é tida como uma “tabula rasa” precisando que um adulto escreva nesta folha em branco todas as impressões de seu querer, ignorando completamente o que há de inerente “à folha”. Tapa-se a boca da criança com silver tape. O outro lado - que é novo e ainda tenho apenas um grande incômodo e coloco nesta nota apenas como suscitador de questão – é aquele em que a criança tem todo o saber sobre si, é responsável por seus atos e posta a tomar decisões, sendo que, conforme é sabido, como criança, ela ainda não tem recursos subjetivos para tal tarefa.
Pergunto, então: seria essa a fonte de tanta agitação de crianças que são chamadas a responder por aquilo que ainda não podem e, por isso, “debatem-se” para achar uma resposta que ainda não está ali? Presencio uma geração de pipas sem linha, vagando a esmo pelo céu das escolhas, perdidas, pois lhe falta o que Miller coloca como sendo inerente à condição de criança, aquela que ainda precisa ser guiada, balizada do seu saber. “É a criança, na psicanálise, quem é suposto saber e é mais ao Outro que se trata de educar; é o Outro que convém aprender a se conter. Quando este Outro é incoerente e cruel; quando ele deixa, assim, o sujeito sem bússola e sem identificação, trata-se de elucubrar com a criança um saber ao alcance dela, à medida dela, que lhe possa servir” (p. 9). Neste sentido, talvez devêssemos nos ater mais aos adultos a educar do que às crianças!


[1] MILLER, J.A. “A criança e o saber”. CIEN Digital nº 11. Janeiro de 2012.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

POEMA À BOCA FECHADA


Não direi: 
Que o silêncio me sufoca e amordaça. 
Calado estou, calado ficarei, 
Pois que a língua que falo é de outra raça. 

Palavras consumidas se acumulam, 
Se represam, cisterna de águas mortas, 
Ácidas mágoas em limos transformadas, 
Vaza de fundo em que há raízes tortas. 

Não direi: 
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem, 
Palavras que não digam quanto sei 
Neste retiro em que me não conhecem. 

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas, 
Nem só animais bóiam, mortos, medos, 
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam 
No negro poço de onde sobem dedos. 

Só direi, 
Crispadamente recolhido e mudo, 
Que quem se cala quando me calei 
Não poderá morrer sem dizer tudo.

José Saramago

domingo, 8 de janeiro de 2012

Furei

Furei a pílula,
Furei a postagem,
Furei o Puran,
Furei o Cálcio.

Mas fico tranquila,
Pois o furo nos concerne.
Não seria eu,
Se não tivesse furado...

Também não será eu
Se não compensar...

Lá se vão...
Três postagens:
6,7 e8
Ops!
Uma já foi...
7!
e
8!
...

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Puf!

Ia falar alguma coisa importante... Ideia brilhante!
Esqueci! Se foi!
Sumiu, se embolou no meio de um emaranhado de pensamentos simultâneos...
Tantos estímulos...
A barriga que dói,
O barulho que invade o ouvido;
O vento que perturba...
Será que volta?
Foi pro ralo...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Pequena reflexão sobre o ser e o vazio


Gostaria de dizer umas coisas, nas quais, simplesmente, só posso estabelecer entre elas uma relação de crença.
Acredito que somos vazios. Vazios repletos de história. O vazio. Ele comporta o tudo e o nada.
Nisso, o inesperado é sempre algo que pode advir do e no vazio.
Isso também, me diz de algo que não existe uma essência, um SER. O ser é algo no tempo. Ele está unicamente em relação de existência com o tempo.
Não um tempo linear, mas um tempo de banda de moebius.
Desculpe se isso não é objetivo, tão pouco faça sentido. Para mim, isso é igualmente novo.
Mas a cada encontro que um ser tem com outros seres, é algo único, singular e não há repetição. Ritornello, talvez...

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Não há nada que se tenha sentido que um poeta já não o tenha dito...


Eis que reproduzo um dom, um presente que recebi de uma amiga muito especial: Thatiane Peclat Goulart.




Barrow-on-Furness

Sou vil, sou reles, como toda a gente
Não tenho ideais, mas não os tem ninguém.
Quem diz que os tem é como eu, mas mente.
Quem diz que busca é porque não os tem.
É com a imaginação que eu amo o bem.
Meu baixo ser porém não mo consente.
Passo, fantasma do meu ser presente,
Ébrio, por intervalos, de um Além.

Como todos não creio no que creio.
Talvez possa morrer por esse ideal.
Mas, enquanto não morro, falo como leio.

Justificar-me? Sou quem todos são...
Modificar-me? Para meu igual?...
— Acaba lá com isso, ó coração!

Álvaro de Campos



Fonte da Imagem: Álbum Público "..." Thatiane Peclat Goulart

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

L'Horloge

Uma homenagem...



L'Horloge
Horloge! dieu sinistre, effrayant, impassible,
Dont le doigt nous menace et nous dit: «Souviens-toi!
Les vibrantes Douleurs dans ton coeur plein d'effroi
Se planteront bientôt comme dans une cible;

Le Plaisir vaporeux fuira vers l'horizon
Ainsi qu'une sylphide au fond de la coulisse;
Chaque instant te dévore un morceau du délice
À chaque homme accordé pour toute sa saison.

Trois mille six cents fois par heure, la Seconde
Chuchote: Souviens-toi! — Rapide, avec sa voix
D'insecte, Maintenant dit: Je suis Autrefois,
Et j'ai pompé ta vie avec ma trompe immonde!

Remember! Souviens-toi! prodigue! Esto memor!
(Mon gosier de métal parle toutes les langues.)
Les minutes, mortel folâtre, sont des gangues
Qu'il ne faut pas lâcher sans en extraire l'or!

Souviens-toi que le Temps est un joueur avide
Qui gagne sans tricher, à tout coup! c'est la loi.
Le jour décroît; la nuit augmente; Souviens-toi!
Le gouffre a toujours soif; la clepsydre se vide.

Tantôt sonnera l'heure où le divin Hasard,
Où l'auguste Vertu, ton épouse encor vierge,
Où le Repentir même (oh! la dernière auberge!),
Où tout te dira Meurs, vieux lâche! il est trop tard!»

Charles Baudelaire - Fleurs du Mal